São Paulo e Radiohead – Tudo está no seu devido lugar

12 dezembro 2008
by Jana e Nanda

*** Texto de Leandro Zaca, formando em Publicidade e Propaganda pela UnB***
O que teriam em comum um time recém hexacampeão brasileiro e uma das bandas mais aclamadas de todos os tempos? A comparação, a primeira vista, pode parecer insustentável, mas examinada com minúcia, ela fica bem interessante.

Deixando as diferenças obviamente claras entre ambos, apesar de uma equipe poder jogar tão criativamente como um grupo musical faz suas canções e as bandas serem tão entrosadas como a seleção de 70, o Radiohead e o São Paulo tem muito em comum, pois os dois entenderam o mercado onde estão inseridos, e correram atrás para buscar alternativas de obter sucesso em suas empreitadas.

O São Paulo é hoje o único time hexa e tricampeão consecutivo da história do futebol brasileiro e o time que mais somou pontos desde o início da competição por pontos corridos, porque conseguiu focar numa coisa tão vital para esses novos desafios: estrutura. Palavrinha tão banalizada na boca de figurões, cartolas e presidentes de clubes, mas notadamente pouco entendida de fato, a ponto de se mobilizarem para pôr todo o seu significado em prática.

Os dirigentes do clube são paulino deram atenção às categorias de base com o mesmo nível de atendimento dos jogadores profissionais, apostaram na permanência de Muricy Ramalho, que pôde desenvolver um trabalho a longo prazo, e mantiveram uma base e formação tática sempre sólidas, apesar da saída e entrada de novos jogadores.

Como se não bastasse, construíram uma clínica de reabilitação de jogadores muito eficaz, o Reffis, investiram em contratos duradouros, patrocinadores lucrativos, estratégias de marketing bem elaboradas, megalojas com produtos do clube, e até um bar temático dentro do Morumbi. Tudo isso fez com que o Tricolor Paulista esteja hoje no seu devido lugar, com a taça novamente nas mãos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre nas peladas tupiniquins, o mundo da música mundial, das grandes gravadores, dos milhões de cópias vendidas, de superprodutores e estúdios famosos foi abalado severamente pela facilidade da produção e troca de conteúdo e colaboratividade da chamada web 2.0.
Entre mortos e feridos, em meio a todo esse desmoronamento do estandarte da indústria fonográfica, o Radiohead, banda sempre antenada e inventiva, que compôs discos inesquecíveis como Ok Computer e Kid A, conseguiu ser mais uma vez surpreendente. Propôs o que ninguém jamais esperava, o novo cd “In Rainbows” foi lançado na internet com um sistema inovador de “pague quanto quiser”.

O vocalista Thom Yorke e companhia mostraram que entenderam o andamento da carruagem, que era preciso botar as coisas em seu devido lugar, já que é impossível lutar contra o mercado ilegal de música, os bittorrents e a rede peer-to-peer.

 Só com o buzz gerado pela genial iniciativa, fez com que todo o mundo ficasse de olho no novo álbum da banda, e tudo claro, apenas com mídia espontânea, em blogs e jornais, sem gastar um centavo com publicidade.

Ambos conseguiram ver além do seu próprio status de time com recursos e banda renomada, e intencionaram inovar. Nenhuma outra banda conseguiu estar tão presente na mídia, e tão atrelada de forma positiva a seus fãs como o Radiohead.

Nenhum outro clube brasileiro fez tanto como o São Paulo, para focar em resultados e construir uma imagem duradoura para com os novos e antigos torcedores.

Só o Radiohead viu a oportunidade de fechar com o Google uma parceria e lançar o clipe de House of Cards (que por si só foi inovador, feito sem o uso de câmeras, apenas com lasers e scanners) pela web.

Além disso, enxergaram na rede de computadores uma forma de aproximar seu público, lançando um concurso para os fãs fazerem o clipe de Reckoner, nova música de trabalho.

E, só o São Paulo conseguiu manter um técnico por mais de três anos, fechar os maiores contratos publicitários do Brasil, construir até lojas de grife, atendendo assim vários nichos e públicos diferentes.

 Só ele tem a torcida que mais cresce do país, mostrando que é preciso não só investir no clube em si, mas também na imagem e na marca São Paulo.

Por que, então, parece tão difícil para clubes brasileiros entender que entregar o time nas mãos de uma empresa milionária e salvadora jamais pode ser a solução, se essa não vier com planejamento, estrutura e com a visão do mercado e dos novos modelos de negócio que surgem? No fundo, para os dois casos, a coisa é simples, mas ainda assim rockstars e grandes selos musicais, clubes e seus diretores, insistem em correr contra a corrente. Insistem em não entender que se as coisas não vão bem, é porque elas não estão em seu devido lugar.

Everything is in its right place (Tudo está em seu devido lugar) faz parte de Kid A, quarto álbum do Radiohead. E, para o delírio dos fãs, a banda felizmente toca no Brasil em março de 2009.

3 Responses leave one →
  1. Juliana permalink
    dezembro 13, 2008

    Gente, não estava sabendo da parceria!

    E adorei! Nota 10 pro Zaca!

  2. Cacau Araújo permalink
    dezembro 13, 2008

    adoray litros!
    ai o Zaca com toda sua sabedoria de são paulino rock’n'roller

    **:

  3. dezembro 15, 2008

    Nha!! Tomara que eu tenha dinheiro pra ver Radiohead no Brasil!! xD!!
    E não gosto do São Paulo heuhue….!!

    Bjos.

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